28/10/08
A Religião e o seu poder junto à sociedade
É no mínimo curioso que se tente, muitas vezes, em desassociar a religião da política, atitude que somente vem demonstrar um enorme desconhecimento com relação, por exemplo, à própria história da Igreja católica desde o seu efetivo surgimento, no início dos séculos, até aos dias atuais.
E justamente por não conhecê-la, torna-se necessário, primeiramente, esclarecer o importante papel que exerceu, e continua exercendo junto à sociedade, voltando-se, assim, ao início do Cristianismo que nasceu e desenvolveu-se dentro do quadro político-cultural do Império Romano. E depois de ter passado por inúmeras perseguições pelos mais déspotas imperadores romanos, alcançou, somente a partir do século IV, a tolerância pelo Império, conseguindo obter logo após um estatuto de liberdade, o que o fez converter-se finalmente em religião oficial do Estado.
Mas, foi mesmo com o declínio da noção de Estado trazendo o fim do Império Romano que a Igreja católica conseguiu se manter como a única instituição, tendo,assim, a oportunidade de consolidar ainda mais a sua estrutura religiosa, difundindo o Cristianismo entre os povos. E é nesse momento que ela se vê nas mãos com um grande poder político para exercer, finalmente, o seu papel de unificadora, consolidado ao longo da Idade Média (476 a 1453).
Em que pese o inegável papel que teve durante séculos como uma instituição arcaica, elitista e conservadora, não podemos deixar de reconhecer a sua grande iniciativa em se modernizar ao longo dos tempos, quando da constatação de um mundo já fadado a profundas transformações sociais, econômicas e políticas, ocorridas mais acentuadamente no transcurso das décadas de 1950 e 1960. Nesse período a Igreja soube atuar, sem ficar inerte frente a todas essas mudanças, se envolvendo com os mais variados setores, segmentos e classes sociais, empenhando-se com dedicação na promoção da justiça social e da defesa dos direitos humanos.
Foi nesse contexto que em 1962 o Papa João XXIII decidiu convocar o Concílio Vaticano II, vindo a terminar em 1965, já no papado de Paulo VI, a fim de discutir, com os membros da Igreja, qual seria o papel da instituição eclesiástica naquele mundo novo.
As encíclicas papais e as constituições pastorais promulgadas no decorrer desse evento legitimaram uma série de inovações teológicas e pastorais que mudaram os rumos do catolicismo mundial, como o de proclamar o direito da pessoa humana à liberdade religiosa, reconhecendo, portanto, os valores contidos em outras religiões e chamando seus fiéis ao diálogo com elas. A igreja não mais se definia como uma estrutura hierárquica, mas como um conjunto de crentes iguais entre si. Convidando os bispos, os clérigos, bem como os laicos a entrarem na vida e na missão da Igreja.
Cabe lembrar, por conseguinte, o memorável gesto de humildade que teve o nosso saudoso Santo Papa João Paulo II quando, fazendo mea culpa, pelo reconhecimento aos excessos e abusos cometidos sobre alguns episódios históricos, veio a pedir perdão pelas injustiças praticadas em nome da fé e com o aval da Igreja ao longo da história. Ele declarou em sua célebre encíclica Pacem in terris (Paz na terra), que: “a Igreja não deve, como fez no passado, condenar a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; ela precisa, ao contrário, apoiar sem reservas os princípios de igualdade, justiça e liberdade promovidos pelo próprio Cristo em seu famoso Sermão da Montanha (Mateus 5-7)”.
Em suma, urge que se tenha conhecimento de que o Estado e a sociedade são instituições naturais necessárias para a vida do homem , e que, por sua vez, o homem não pode viver sem a sociedade e sem o Estado. Sabemos também, que desde o início dos tempos, os homens sempre possuíram efetiva autonomia para organizar suas instituições políticas e sociais . Isso significa dizer que não há mais um regime político único admitido pela Igreja; o que existe são regimes aceitos dentro de organizações políticas moralmente admitidas pela doutrina católica. Como já bem lembrou D.Eugenio Sales, cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do RJ, “ Devemos distinguir o verdadeiro conceito de “política“, que busca o bem comum, e o que se denomina a “política de partido”. Esta é o campo próprio do laicato, que encontra, na Doutrina Social da Igreja, os critérios adequados, à luz da visão cristã do homem”.
Portanto, conforme a própria orientação dada pelo Concílio é de que: “ A missão confiada por Cristo à sua Igreja, não é de ordem política, econômica ou social: o fim que Ele propôs é, com efeito, de ordem religiosa”.
E esse pensamento se faz muito explícito quando, em um dos vários pronunciamentos feitos pelo Papa Bento XVI, em visita recente aos E.U.A., ao participar de um encontro com representantes de outras religiões afirmou: “ Alegro-me hoje por ter a ocasião de estar com os representantes das diversas religiões presentes (…). O dever de defender a liberdade religiosa não acaba nunca (…). O diálogo entre as religiões: tanto os que participam dela como a sociedade saem enriquecidos (…). Usando as palavras do presidente Franklin Delano Roosevelt, “ nada maior poderia receber nossa terra que um renascimento do espírito de fé”. Que os membros de todas as religiões estejam unidos na defesa e promoção da vida e da liberdade religiosa em todo o mundo. E que, dedicando-se generosamente a este sagrado dever (…) sejamos instrumentos de paz para toda a família humana”.
Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, essas mudanças foram extremamente marcantes.
Entretanto, no Brasil, a Igreja católica mesmo influenciada diretamente pelas idéias do Concílio Vaticano II passou, paradoxalmente, a enfrentar perdas de adeptos para outros credos religiosos, como o protestantismo e umbandismo, além do surgimento de algumas seitas com o único fim de satisfazer interesses particulares, através de promessas irrealizáveis, logrando explorar a boa fé encontrada sobretudo no povo mais humilde.
Através de pesquisa da fundação alemã Bertelsmann Stiftung feita com 21.000 jovens de 18 a 29 anos em 21 países, constata-se que os brasileiros são os terceiros mais religiosos, permanecendo atrás somente dos da Nigéria e Guatemala. No Brasil, cerca de 37% se consideram muito religiosos; 35%, moderadamente religiosos; e só 27%, não religiosos.
Há quatro anos, a antropóloga Regina Fonseca, juntamente com o sociólogo Alexandre Brasil Fonseca destrincharam dados das principais correntes mapeadas pelo IBGE, no Censo 2000, e publicaram matéria na revista “MegaZine“, de 16.9.2008, que é voltada para o público jovem e distribuída por um jornal de destaque nacional, comprovando que houve um aumento de 95% para 96% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos que são religiosos.
No que diz respeito ao nível de crenças religiosas, 91% garantiram acreditar em Deus e em vida após a morte; 71% afirmaram que Deus influi diretamente nas suas vidas; e 74% contaram que rezam uma ou várias vezes ao dia. Foram assim definidos pela referida pesquisa: Católicos, 55,7%; Afro-Brasileiros, 1,27%; Evangélicos, 21,98%; Espíritas, 2,42%; Budistas, 0,15%; Esotéricos, 0,07%; Testemunhas de Jeová, 0,75%; Judeus, 0,18%; Muçulmanos, 0,01%; e sem religião, 15,76%.
Assim sendo, a avaliação que fazemos para tais resultados sobre os jovens que se relacionam com a sociedade contemporânea politizada é a constatação de que estão também voltados à fé religiosa, independentemente do seu credo. E isso, se deu, tão somente, em razão de uma visão mais realista da Igreja católica frente a um mundo cada vez mais violento e conturbado, com o grande propósito de reunir todos os cristãos e levá-los a um compromisso sempre mais consciente com a dimensão espiritual de sua fé que se concretiza em todas as latitudes da vida humana, estabelecendo-se como a precursora na convergência de tradições religiosas e culturais motivadas pelo idêntico desejo de colocar a pessoa humana no coração das instituições, leis e atuações na sociedade e, por conseguinte, na vida política do país, cujo fundamental objetivo é a busca e a procura do bem comum.
criado por André Menna Barreto
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